O
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff em Ato em
Comemoração aos 10 anos do Programa Bolsa Família. Foto: Ricardo
Stuckert/Instituto Lula
Toda unanimidade é burra, disse Nelson Rodrigues.
Sem dar muita bola para o Nelson ou para a burrice, o Brasil é um país onde
imperam algumas unanimidades. O programa governamental Bolsa Família é uma
unanimidade nacional. Não há líder político, acadêmico reconhecido ou voz
relevante que fale ao povão que, de fato, questione o programa. A exceção de
praxe cabe a alguns jornalistas.
Todos os atores que se apresentam no cenário
político, quando passam pelo Bolsa Família, estacionam no lugar-comum: irão
mantê-lo, aprimorá-lo e até mesmo ampliá-lo. Ninguém é capaz de dizer até onde
ou até quando. Parece que o objetivo é fazer com que a totalidade da população
seja beneficiária direta do papai governo. Pensam que somos uma nação de
esfomeados incapaz de se autossustentar.
A superficialidade do debate, ou melhor, a
inexistência do debate, faz com que a conclusão mais óbvia para um liberal
fique encoberta, fora do alcance até mesmo das ditas mentes mais brilhantes. O
sucesso de um programa social não se mede pelo número de pessoas que entram
nele, mas pelo número de pessoas que dele saem! Ronald Reagan teria dito algo
assim.
O próprio leitor que chegou até aqui já pode estar
com raiva deste “autor reacionário e insensível”, sem nem se dar conta de que
em nenhum momento foi abordado o mérito do programa. Também o leitor é vítima
de um ambiente que toca um samba de uma nota só. Isso o envolve de tal maneira
que o induz a reagir de forma automática contra qualquer apontamento que se
faça a respeito das unanimidades nacionais. Não há raciocínio, há apenas
reflexos condicionados.
Tal ambiente é consequência de décadas de ausência
de uma corrente liberal influente. O que havia no final do Império, definhou.
A ascensão do varguismo após a Revolução de 30
contribuiu com algumas pás de terra sobre o que restava de liberalismo no país.
O populismo de Getúlio, o uso do “trabalhismo” e o caráter antidemocrático do
Estado Novo encurralaram os liberais no ringue do debate público brasileiro. O
Estado era Getúlio, Getúlio era o pai dos pobres. Os poucos liberais que
restavam se abrigaram na então recém-criada UDN.
Getúlio caiu, permaneceram o Estado, os pobres, o
populismo e toda a instabilidade política de nosso regime republicano.
A tomada do poder pelos militares, em 1964, jogou a
última pá de terra sobre o que restava de liberalismo no Brasil. Os militares
baniram todos os partidos e forjaram um novo cenário político. Os liberais que
influenciavam uma parte da UDN perderam o espaço que haviam alcançado.
O lance definitivo ocorre no ambiente acadêmico. A
esquerda muda sua estratégia e, paralelamente à luta armada, passa a trabalhar
a chamada revolução cultural, baseada nos escritos de Antônio Gramsci. Aos
poucos, ocupa os espaços nas universidades, domina a produção acadêmica e forma
líderes e intelectuais de cultura marxista com nível de preparo para ocupar
postos-chave em diversos setores da sociedade, seja na economia, nas artes, na
imprensa e na própria universidade.
O predomínio marxista na universidade baniu os
autores liberais da discussão acadêmica. Isso impediu a formação de novos
intelectuais liberais e, consequentemente, novas referências políticas e
culturais.
O resultado da ascendência esquerdista pode ser
visto já durante o próprio regime militar, que, especialmente em sua fase
final, foi marcado por uma brutal intervenção estatal na economia, algo
frontalmente contrário aos princípios liberais. Não havia liberais como
referência, com exceção de um Roberto Campos, que amadurecia como liberal.
Campos amadureceu e morreu. Era o único, não
multiplicou seguidores e tampouco deixou sucessor. Hoje, no debate público
brasileiro, não há liberais. Logo, não há debate. Intelectualmente, somos uma
democracia maneta. Temos somente a mão esquerda e vivemos a babar na gravata.
Daí para o leitor, tolhido de um debate sério, deparar-se com um
questionamento sobre a “bondade estatal” e, automaticamente, assustar-se é
consequência inevitável.
Quem acompanha os ambientes virtuais nota que há um
jovem movimento liberal que emerge. Alguns think tanks foram criados e
tornaram acessíveis obras escassas e outras antes nem editadas no Brasil.
Apesar de alguns esforços, isso ainda está longe de caracterizar um movimento
político, mas avança no campo intelectual, o que é o caminho natural para que,
no futuro, surja um movimento político sólido.
É possível que, em breve, o leitor que hoje se
assusta já esteja familiarizado com posições que tradicionalmente não está
acostumado a ouvir. Ambiente efervescente de ideias diferentes deve abranger da
grã-fina ao contínuo.
A democracia é feita de tensões e não é possível
que o seu desenvolvimento ocorra sem o choque de ideias antagônicas. Por isso,
é necessário que surjam atores políticos com formação diversa e com coragem
para sustentar posições, com mais compromisso intelectual e menos populismo.
É o que faz o eixo referencial do país se deslocar
para o rumo certo. Questionar uma unanimidade nacional, como o Bolsa Família,
pode não ter nada de reacionarismo ou insensibilidade. Pode ter fundamentação
racional e correta ou, no mínimo, intelectualmente honesta.
É o que se espera em um novo cenário, pois, no
ambiente atual, os atores que se apresentam não possuem formação ou coragem
para desmitificar nenhuma unanimidade nacional em público. Aliás, nem em
público, nem em lugar algum. Nem mesmo em um terreno baldio, na presença apenas
de uma cabra vadia.
Fonte: Paulo Eduardo Martins - Revista Idéias
Paulo Eduardo Martins
O
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff
em Ato em Comemoração aos 10 anos do Programa Bolsa Família. Foto:
Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Toda
unanimidade é burra, disse Nelson Rodrigues. Sem dar muita bola para o
Nelson ou para a burrice, o Brasil é um país onde imperam algumas
unanimidades. O programa governamental Bolsa Família é uma unanimidade
nacional. Não há líder político, acadêmico reconhecido ou voz relevante
que fale ao povão que, de fato, questione o programa. A exceção de praxe
cabe a alguns jornalistas.
Todos os atores que
se apresentam no cenário político, quando passam pelo Bolsa Família,
estacionam no lugar-comum: irão mantê-lo, aprimorá-lo e até mesmo
ampliá-lo. Ninguém é capaz de dizer até onde ou até quando. Parece que o
objetivo é fazer com que a totalidade da população seja beneficiária
direta do papai governo. Pensam que somos uma nação de esfomeados
incapaz de se autossustentar.
A superficialidade
do debate, ou melhor, a inexistência do debate, faz com que a conclusão
mais óbvia para um liberal fique encoberta, fora do alcance até mesmo
das ditas mentes mais brilhantes. O sucesso de um programa social não se
mede pelo número de pessoas que entram nele, mas pelo número de pessoas
que dele saem! Ronald Reagan teria dito algo assim.
O próprio leitor
que chegou até aqui já pode estar com raiva deste “autor reacionário e
insensível”, sem nem se dar conta de que em nenhum momento foi abordado o
mérito do programa. Também o leitor é vítima de um ambiente que toca um
samba de uma nota só. Isso o envolve de tal maneira que o induz a
reagir de forma automática contra qualquer apontamento que se faça a
respeito das unanimidades nacionais. Não há raciocínio, há apenas
reflexos condicionados.
Tal ambiente é consequência de décadas de ausência de uma corrente liberal influente. O que havia no final do Império, definhou.
A ascensão do
varguismo após a Revolução de 30 contribuiu com algumas pás de terra
sobre o que restava de liberalismo no país. O populismo de Getúlio, o
uso do “trabalhismo” e o caráter antidemocrático do Estado Novo
encurralaram os liberais no ringue do debate público brasileiro. O
Estado era Getúlio, Getúlio era o pai dos pobres. Os poucos liberais
que restavam se abrigaram na então recém-criada UDN.
Getúlio caiu, permaneceram o Estado, os pobres, o populismo e toda a instabilidade política de nosso regime republicano.
A tomada do poder
pelos militares, em 1964, jogou a última pá de terra sobre o que restava
de liberalismo no Brasil. Os militares baniram todos os partidos e
forjaram um novo cenário político. Os liberais que influenciavam uma
parte da UDN perderam o espaço que haviam alcançado.
O lance definitivo
ocorre no ambiente acadêmico. A esquerda muda sua estratégia e,
paralelamente à luta armada, passa a trabalhar a chamada revolução
cultural, baseada nos escritos de Antônio Gramsci. Aos poucos, ocupa os
espaços nas universidades, domina a produção acadêmica e forma líderes e
intelectuais de cultura marxista com nível de preparo para ocupar
postos-chave em diversos setores da sociedade, seja na economia, nas
artes, na imprensa e na própria universidade.
O predomínio
marxista na universidade baniu os autores liberais da discussão
acadêmica. Isso impediu a formação de novos intelectuais liberais e,
consequentemente, novas referências políticas e culturais.
O resultado da
ascendência esquerdista pode ser visto já durante o próprio regime
militar, que, especialmente em sua fase final, foi marcado por uma
brutal intervenção estatal na economia, algo frontalmente contrário aos
princípios liberais. Não havia liberais como referência, com exceção de
um Roberto Campos, que amadurecia como liberal.
Campos amadureceu e
morreu. Era o único, não multiplicou seguidores e tampouco deixou
sucessor. Hoje, no debate público brasileiro, não há liberais. Logo, não
há debate. Intelectualmente, somos uma democracia maneta. Temos somente
a mão esquerda e vivemos a babar na gravata. Daí para o leitor, tolhido
de um debate sério, deparar-se com um questionamento sobre a “bondade
estatal” e, automaticamente, assustar-se é consequência inevitável.
Quem acompanha os ambientes virtuais nota que há um jovem movimento liberal que emerge. Alguns think tanks
foram criados e tornaram acessíveis obras escassas e outras antes nem
editadas no Brasil. Apesar de alguns esforços, isso ainda está longe de
caracterizar um movimento político, mas avança no campo intelectual, o
que é o caminho natural para que, no futuro, surja um movimento político
sólido.
É possível que, em
breve, o leitor que hoje se assusta já esteja familiarizado com posições
que tradicionalmente não está acostumado a ouvir. Ambiente efervescente
de ideias diferentes deve abranger da grã-fina ao contínuo.
A democracia é
feita de tensões e não é possível que o seu desenvolvimento ocorra sem o
choque de ideias antagônicas. Por isso, é necessário que surjam atores
políticos com formação diversa e com coragem para sustentar posições,
com mais compromisso intelectual e menos populismo.
É o que faz o eixo
referencial do país se deslocar para o rumo certo. Questionar uma
unanimidade nacional, como o Bolsa Família, pode não ter nada de
reacionarismo ou insensibilidade. Pode ter fundamentação racional e
correta ou, no mínimo, intelectualmente honesta.
É o que se espera
em um novo cenário, pois, no ambiente atual, os atores que se apresentam
não possuem formação ou coragem para desmitificar nenhuma unanimidade
nacional em público. Aliás, nem em público, nem em lugar algum. Nem
mesmo em um terreno baldio, na presença apenas de uma cabra vadia.
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O
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff
em Ato em Comemoração aos 10 anos do Programa Bolsa Família. Foto:
Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Toda
unanimidade é burra, disse Nelson Rodrigues. Sem dar muita bola para o
Nelson ou para a burrice, o Brasil é um país onde imperam algumas
unanimidades. O programa governamental Bolsa Família é uma unanimidade
nacional. Não há líder político, acadêmico reconhecido ou voz relevante
que fale ao povão que, de fato, questione o programa. A exceção de praxe
cabe a alguns jornalistas.
Todos os atores que
se apresentam no cenário político, quando passam pelo Bolsa Família,
estacionam no lugar-comum: irão mantê-lo, aprimorá-lo e até mesmo
ampliá-lo. Ninguém é capaz de dizer até onde ou até quando. Parece que o
objetivo é fazer com que a totalidade da população seja beneficiária
direta do papai governo. Pensam que somos uma nação de esfomeados
incapaz de se autossustentar.
A superficialidade
do debate, ou melhor, a inexistência do debate, faz com que a conclusão
mais óbvia para um liberal fique encoberta, fora do alcance até mesmo
das ditas mentes mais brilhantes. O sucesso de um programa social não se
mede pelo número de pessoas que entram nele, mas pelo número de pessoas
que dele saem! Ronald Reagan teria dito algo assim.
O próprio leitor
que chegou até aqui já pode estar com raiva deste “autor reacionário e
insensível”, sem nem se dar conta de que em nenhum momento foi abordado o
mérito do programa. Também o leitor é vítima de um ambiente que toca um
samba de uma nota só. Isso o envolve de tal maneira que o induz a
reagir de forma automática contra qualquer apontamento que se faça a
respeito das unanimidades nacionais. Não há raciocínio, há apenas
reflexos condicionados.
Tal ambiente é consequência de décadas de ausência de uma corrente liberal influente. O que havia no final do Império, definhou.
A ascensão do
varguismo após a Revolução de 30 contribuiu com algumas pás de terra
sobre o que restava de liberalismo no país. O populismo de Getúlio, o
uso do “trabalhismo” e o caráter antidemocrático do Estado Novo
encurralaram os liberais no ringue do debate público brasileiro. O
Estado era Getúlio, Getúlio era o pai dos pobres. Os poucos liberais
que restavam se abrigaram na então recém-criada UDN.
Getúlio caiu, permaneceram o Estado, os pobres, o populismo e toda a instabilidade política de nosso regime republicano.
A tomada do poder
pelos militares, em 1964, jogou a última pá de terra sobre o que restava
de liberalismo no Brasil. Os militares baniram todos os partidos e
forjaram um novo cenário político. Os liberais que influenciavam uma
parte da UDN perderam o espaço que haviam alcançado.
O lance definitivo
ocorre no ambiente acadêmico. A esquerda muda sua estratégia e,
paralelamente à luta armada, passa a trabalhar a chamada revolução
cultural, baseada nos escritos de Antônio Gramsci. Aos poucos, ocupa os
espaços nas universidades, domina a produção acadêmica e forma líderes e
intelectuais de cultura marxista com nível de preparo para ocupar
postos-chave em diversos setores da sociedade, seja na economia, nas
artes, na imprensa e na própria universidade.
O predomínio
marxista na universidade baniu os autores liberais da discussão
acadêmica. Isso impediu a formação de novos intelectuais liberais e,
consequentemente, novas referências políticas e culturais.
O resultado da
ascendência esquerdista pode ser visto já durante o próprio regime
militar, que, especialmente em sua fase final, foi marcado por uma
brutal intervenção estatal na economia, algo frontalmente contrário aos
princípios liberais. Não havia liberais como referência, com exceção de
um Roberto Campos, que amadurecia como liberal.
Campos amadureceu e
morreu. Era o único, não multiplicou seguidores e tampouco deixou
sucessor. Hoje, no debate público brasileiro, não há liberais. Logo, não
há debate. Intelectualmente, somos uma democracia maneta. Temos somente
a mão esquerda e vivemos a babar na gravata. Daí para o leitor, tolhido
de um debate sério, deparar-se com um questionamento sobre a “bondade
estatal” e, automaticamente, assustar-se é consequência inevitável.
Quem acompanha os ambientes virtuais nota que há um jovem movimento liberal que emerge. Alguns think tanks
foram criados e tornaram acessíveis obras escassas e outras antes nem
editadas no Brasil. Apesar de alguns esforços, isso ainda está longe de
caracterizar um movimento político, mas avança no campo intelectual, o
que é o caminho natural para que, no futuro, surja um movimento político
sólido.
É possível que, em
breve, o leitor que hoje se assusta já esteja familiarizado com posições
que tradicionalmente não está acostumado a ouvir. Ambiente efervescente
de ideias diferentes deve abranger da grã-fina ao contínuo.
A democracia é
feita de tensões e não é possível que o seu desenvolvimento ocorra sem o
choque de ideias antagônicas. Por isso, é necessário que surjam atores
políticos com formação diversa e com coragem para sustentar posições,
com mais compromisso intelectual e menos populismo.
É o que faz o eixo
referencial do país se deslocar para o rumo certo. Questionar uma
unanimidade nacional, como o Bolsa Família, pode não ter nada de
reacionarismo ou insensibilidade. Pode ter fundamentação racional e
correta ou, no mínimo, intelectualmente honesta.
É o que se espera
em um novo cenário, pois, no ambiente atual, os atores que se apresentam
não possuem formação ou coragem para desmitificar nenhuma unanimidade
nacional em público. Aliás, nem em público, nem em lugar algum. Nem
mesmo em um terreno baldio, na presença apenas de uma cabra vadia.
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